TEATRO KAUS 12 ANOS

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  Críticas

 

 Cerimonial íntimo 

Kil Abreu -- 25/08/2010 - FENTEPP

        A montagem do texto de Arrabal pelo Teatro Kaus é exercício a um só tempo reverente e autônomo sobre a dramaturgia do autor espanhol. Preserva dela a estranheza da tonalidade quase infantil contrastada com situações que beiram o grotesco. Mas, serve aquele banquete de coisas excêntricas em bandeja adornada com motivos que, eleitos pelo grupo, criam para a história uma moldura específica, a remeter ao cinema expressionista e, mais longe, ao surrealismo.
       O texto de Arrabal é uma espécie de versão contemporânea da tragédia edipiana e tem como eixo o desejo manifestado a um só tempo em doses de submissão e rebeldia de um filho em relação à mãe dominadora. Cavanosa, este Hamlet quase castrado, porém mais sexualizado e mais infantilizado dos nossos tempos, é também vítima, assim como aquele, da paixão triste e do sofrimento diante de impulsos pendulares, todos eles à beira do abismo existencial: matar ou não matar; reconhecer-se no amor ou decretar a impossibilidade dele. Mas, longe do dilaceramento barroco que leva o personagem de Shakespeare à expressão retórica e palavrosa dos sentimentos, este aqui se debate mais objetivamente e a partir de uma filosofia chã, movimentada por ações imediatas e pelo raciocínio instintivo do animal educado sob o chicote das suas próprias taras e repressões. Resguardada a autonomia poética, é impossível não lembrar a própria biografia do autor e sua vida familiar conturbada e o contexto de conjuntura repressiva do momento em que esta dramaturgia é criada, ainda sob Franco, nos anos 60.
       Sem compromisso com estas leituras subliminares, nem a biográfica nem a política, a montagem dirigida por Reginaldo Nascimento prefere dedicar-se ao exercício de linguagem na tentativa de criar um mundo cênico que, sem desprezar o essencial de Arrabal, procura uma forma própria. Afastando-se definitivamente da abordagem naturalista que na origem já está contornada e aproveitando o generoso campo de intervenção que a peça, uma provocação aberta, oferece, o encenador arquiteta um tipo de formalismo levantado à base de flertes com uma atmosfera expressionista. A gestualidade é marcada coreograficamente e reforça uma idéia que é a do patetismo da emoção interditada, como se a expressão íntima das personagens fosse o tempo inteiro editada pela gestualidade, que a enquadra e alinha.
       O resultado é, de um modo geral, estranho e convidativo. A proposta aparece bem sustentada no espaço cenográfico habitado por bonecas gigantes, nos figurinos beirando o non-sense, mas se mantendo em diálogo com o real, e na pontuação da sonoplastia, contrária à mimetização dos estados que em determinada lógica estariam regendo as cenas. Em caminho oposto, cria um contraponto sonoro que tende a desestabilizar uma leitura de base psicológica das situações. O elenco colabora bem com estas operações arriscadas. Compõe personagens de comportamentos medidos à régua sem deixar que a marcação gestual esterilize o vigor expressivo que está em todos os quatro intérpretes. Sem demérito aos demais, chama a atenção o Cavanosa de Alessandro Hernandez. Além das já bem sustentadas performances alcançadas pelos seus parceiros de cena ele nos mostra um trabalho de ator maduro, original na maneira como oferece ao espetáculo, em comovente entrega, as medidas precisas de crueldade e ternura que fazem do personagem uma figura que, por estranha, é mais que isto: salta complexa à nossa frente a ponto de, assustadoramente , também podermos de alguma forma ou em algum momento nos reconhecermos nela.
Mesmo para um crítico que não tem muita simpatia pela dramaturgia deste importante espanhol é estimulante observar a aventura criativa que se colocou o Teatro Kaus e o rigor com que a põe em movimento. Isto por si já justifica sem meios termos o projeto artístico que o grupo anuncia: o de ser uma Companhia de teatro experimental.


Fonte: Kil Abreu25/08/2010

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Gostei, não gostei  

 Luiz Merten - 25.julho.2010

         Há dias estou para escrever alguma coisa sobre ‘O Grande Cerimonial’. Fui ver a montagem de Reginaldo Nascimento para a peça de Fernando Arrabal na sala experimental do Teatro Augusta. Adorei. ‘O Grande Cerimonial’ despede-se hoje e, portanto, é sua última chance de ver o espetáculo, que achei muito interessante. Confesso que não conheço Arrabal tanto quanto gostaria. Não gosto de ler teatro – ainda não li a adaptação que meu amigo Dib Carneiro fez de ‘Crônica da Casa Assassinada’, de Lúcio Cardoso, a pedido de Gabriel Villela e que o próprio Gabriel e Antônio Gonçalves Filho consideraram sensacional –, como, no fundo, também não gosto de ler roteiros. Michelangelo Antonioni dizia que eram páginas mortas, ferramentas para que o diretor construa todo um universo. Enfim… Não vi a célebre montagem de Victor Garcia para ‘Cemitério de Automóveis’ e acho que a única peça que vi montada de Arrabal foi ‘O Imperador da Assíria’. Mas sempre me interessei pelo conceito do teatro pânico – que o próprio Arrabal dizia não saber do que se trata – e admirava a independência do dramaturgo, que esculhambou com todo mundo (a esquerda, Fidel, o PC espanhol, mas também a direita). Há essa ligação forte entre Arrabal e o cinema de Alejandro Jodorowski – que adaptou ‘Fando y Liz’ – e, assistindo a ‘O Grande Cerimonial’, eu tinha a impressão de estar revendo um fragmento de ‘Santa Sangre’, que permanece como meu Jodorowski favorito. Um homem cercado de bonecas do tamanho de mulheres adultas. Um corcunda que se considera horrível e que ama e odeia com igual intensidade, usando essas bonecas para exorcizar sua relação doentia com a mãe manipuladora – tudo a ver com o ‘Santo Sangue’. Delírio psicótico ou sexual, ‘O Grande Cerimonial’ remete ao surrealismo, e não só. Me impressionou especialmente a preparação do elenco, tanto física quanto verbal, e o tour de force de Alessandro Hernandez merece todos os elogios. O cara é f… Segura a onda física, a corcunda monstruosa, mas o domínio da voz não é menos impressionante. Tudo bem que a sala é pequena, cria um clima íntimo, mas a montagem é vigorosa e eu, pelo menos, viajei nas fantasias de amor e ódio entre mãe e filho e na possibilidade de superação proporcionada por essa outra mulher, que vai desconhecer o mal e a feiúra, oferecendo uma alternativa a Cavanosa (o protagonista). É muito mais do que posso dizer sobre ‘Anatomia Frozen’. Fui ontem ao Teatro Imprensa e tomei um susto. Nunca vi a sala principal daquele teatro tão cheia. Sentei lá atrás, e o sujeito na minha frente, ao dormir, caía para a esquerda. Duas fileiras à frente, outro cara também dormia e caía para a direita, o que fazia com que as cabeças dos dois fechassem meu ângulo de visão e obrigassem a verdadeiros contorcionismos para conseguir enxergar o palco. Por um lado, foi bom, porque em momento algum sequer pisquei, que dirá dormir, mas detesto ficar me mexendo na poltrona (exceto no cinema, quando me projeto nas cenas de lutas e brigo com a tela, mas aí é diferente). Havia adorado o ‘Agreste’ do Márcio Aurélio, mas confesso que não tive o mesmo encantamento com este ‘Agreste 2’, que papou os prêmios mais importantes de teatro em São Paulo, inclusive da APCA. Emprego ‘Agreste 2’ num sentido muito particular. O texto de Bryony Lavery, diz o programa, faz a anatomia da violência e discute a psicopatia social por meio de três narrativas que se entrelaçam. Uma psquiatra que escreve uma tese sobre assassinatos em série, um pedófilo condenado à prisão e a mãe de uma de suas vítimas. O texto é árido e a montagem, naquele ambiente asséptico, cirúrgico, todo branco, acentua essa aridez, daí o ‘Agreste 2’. Gostaria de ter gostado, mas achei mais respeitável do que propriamente denso. As cenas da psiquiatra com o pedófilo não me interessaram minimamente e acho que só as da mãe com o assassino da filha me produziram alguma emoção. Se buscasse a fundo, até creio que conseguiria encontrar certas conexões entre as duas montagens. Só quero dizer que achei toda essa premiação de ‘Anatomia Frozen’ excessiva. Inversamente, pela excelência de seu trabalho, gostaria de ter visto Alessandro Hernandez reconhecido, pelo menos com uma indicação para o Shell.

Luiz Merten - 25.julho.2010

 

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Arrabal encena o avesso do mito Casanova

CHRISTIANE RIERA -CRÍTICA DA FOLHA

Em “O Grande Cerimonial”, Cavanosa é homem atormentado pela mãe e só sente prazer ao torturar as amantes

Casanova não é um mito tal qual Don Juan. Ele viveu por ruas de Veneza, onde colecionou centenas de mulheres e encrencas, fez sucesso como defensor de liberdades pessoais e atravessou séculos inspirando livros e filmes. Em “O Grande Cerimonial”, porém, o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal virou o paradigma do personagem do avesso.

 Aqui, ele é Cavanosa e age segundo vaivém tirânico de sua mãe, despejando pelo palco o mundo assombrado de seus sonhos. Ao receber visitas femininas, deixa dissecar seu comportamento sexual declarando: “Sou assassino. Acabo de matar minha mãe.” Com esse desejo não realizado, sua saga perpassa por pesadelos. Cavanosa goza apenas ao se imaginar torturando mulheres ou transando com bonecas. Às vezes, grita por sua mãe, assustado: “Quer que eu seja virgem? Eu serei”.

 A direção de Reginaldo Nascimento à frente do Teatro Kaus adiciona aos elementos surrealistas do texto uma proposta cênica híbrida, em especial expressionista, na trilha sonora intensa e na iluminação de Vanderlei Conte, que projeta sombras para traduzir a aspereza das emoções dos personagens. 

O mesmo tom misto vaza para a interpretação sincronizada dos atores, em constante tensão e relaxamento. Destaque para o excelente Alessandro Hernandez como Cavanosa, os olhos temerosos em pleno domínio de expressão facial e gestos em impressionantes deformidades. As bonecas que ocupam boa parte do cenário destoam dessa orquestração já elaborada entre linguagens e acabam roubando a esquizofrenia interpretada com maestria pelos atores.

FOLHA DE SÃO PAULO -  ILUSTRADA -  Publicado em 30/06/2010

 

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Uma liturgia de vingança e redenção

Crítica: Jefferson Del Rios - O Estado de S.Paulo.

Grupo Kaus, que valoriza a dramaturgia latina, agora encena O Grande Cerimonial, de Fernando Arrabal

Um homem cercado de bonecas do tamanho de mulheres adultas realiza com elas rituais de sedução e massacre. O corcunda Cavanosa, que se imagina horrível, as ama e as odeia ao mesmo tempo, e planeja matá-las por serem projeções de sua mãe tirânica. Só o amor de uma jovem, que desconhece o mal e a feiura, poderá redimi-lo; e ela vai aparecer.

Essa história pode ser um delírio psicótico ou um episódio sexual. O Grande Cerimonial, de Fernando Arrabal, pelo Teatro Kaus, dirigido por Reginaldo Nascimento, oferece ambas as possibilidades e algo mais. Se parece assunto improvável, recorde-se que o autor, um dos últimos surrealistas influenciados diretamente por André Breton, não teme o contraditório e permanece fiel às fantasias de amor e ódio entre mãe e filho e à expiação desses sentimentos.

Tesouros. Vamos ouvi-lo: "Creio que quando se vê uma cerimônia no teatro - grotesca ou não - ela ilumina nossos tesouros mais secretos. Seremos felizes se pudermos achar belo o que é obscuro, porque nesse instante o destruiremos. É a maior tomada de consciência. É preciso dizer o que não se ousa dizer."

Por um caminho bem particular, Arrabal junta suas antevisões freudianas à tradição espanhola do grotesco artístico. Pode-se assistir à peça só desse ângulo, embora seja oportuno conhecer o substrato político e cultural que a motivou. O artista fez dos traumas que a ditadura do general Franco (1939-1975) e a intolerância de um catolicismo medieval lhe impuseram os temas de um acerto de contas com as várias formas, dissimuladas ou explícitas, de opressão familiar, religiosa e ideológica. Com um estilo desarmado, como um lamento infantil, constrói tramas que ecoam a perversidade latente nas pregações salvacionistas, seja da sua mãe real, obcecada na fé, ou o general Milan Astray que teria bradado "Viva la muerte!" em defesa do fascismo que sufocou a Espanha (e matou o pai do dramaturgo, preso e desaparecido em episódio nebuloso).

Fantasmas. O período histórico negro passou, mas o tempo emocional continua a latejar neste teatro. Mesmo sendo escritor consagrado, com novos horizontes e interesses, quando Arrabal retoma a escrita, os velhos fantasmas estão lá: em 1986 escreveu o romance, A Virgem Vermelha sobre a mulher que decide ter um filho de pai ocasional. Anos mais tarde será morta a tiros pelo rebento. A seguir, em 1999, lançou Cartas de Amor, monólogo da senhora que relembra, tardiamente emocionada, a correspondência com o filho distante, o que pode ser apenas sua imaginação.

Na atual versão de O Grande Cerimonial, Reginaldo Nascimento trata os personagens como marionetes de gestos mecânicos e fragmentados, o que evita a abordagem realista e psicológica da peça. Há sequências que lembram balé e os giros lentos das figuras de caixinhas de música. Há uma misteriosa expressividade nessas cenas que se congelam.Percebem-se ali as linhas gerais do expressionismo cinematográfico alemão, sobretudo no desempenho de Peter Lorre em M (ou Vampiro de Dusseldorf) no Cavanosa que Alessandro Hernandez interpreta com brilhantes nuances de angústia e solidão.

Em sentido oposto, está a ternura frágil que Amália Pereira confere à donzela redentora com aqueles olhares de Giulietta Masina em Noites de Cabíria, de Fellini. O mundo fechado de Arrabal é completado pela mãe voraz à qual Deborah Scavone, com voz potente, confere um misto de caricatura e agressividade, e o amante, papel mais episódico, que Alessandro Hanel consegue realçar em breves intervenções.

A companhia. O cinema é apenas referência, porque a marca autoral do diretor é firme na valorização da dramaturgia latino-americana e ibérica desde a fundação do Kaus em 1989. Resultado de persistência e amadurecimento, O Grande Cerimonial terá melhores resultados em um espaço mais favorável aos intérpretes, cenário e iluminação. Fernando Arrabal, que esteve em São Paulo em agosto de 2009 em apoio ao grupo, certamente aprova esse gesto de fantasia e imaginação sem medo.

O ESTADO  DE SÃO PAULO -  CADERNO 2 -  Publicado em 20/05/2010

 

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      Um certo Arrabal aterrisa no Te atro Augusta   

     Ruy Jobim Filho, especial para o Aplaus o Brasil aplausobrasil@aplausobrasil.com)

O Teatro paulistano tem a sorte e o privilégio da diversidade, onde clássicos modernos e clássicos eternos dividem a cena e traçam suas estratégias múltiplas para acordar um público não menos do que avisado. Em inglês, a palavra moviegoer se aplica muito bem ao cinéfilo que prefere ver seus filmes prediletos na telona. O theatergoer (e essa palavra existe mesmo, não é um neologismo) daqui, de São Paulo, tem, como opções, desde Nelson a Plínio (Marcos), de Neil LaBute a Shakespeare, de Luis Alberto de Abreu a Sade. Mas é um certo Arrabal que dá o cutucão feroz em todo o restante, mexendo com as ideias (agora, sem o acento) e com as plateias (também sem o acento). Arrabal tira o acento.

O (já clássico) Fernando Arrabal (nascido em 1932, n o Marrocos espanhol) é o mais recente dramaturgo montado pelo Teatro Kaus Cia. Experimental, grupo que foi trazido de São José dos Campos para a capital pelo diretor Reginaldo Nascimento e pela atriz/jornalista Amália Pereira e que já montou muita coisa boa por essas bandas de cá. Agora eles trazem O Grande Cerimonial para completar o rol e ficar em cartaz na Sala Experimental do Teatro Augusta.

Arrabal não poupa nada, nem ninguém, e o mesmo faz essa montagem do Kaus. Concessão zero. O personagem central de O Grande Cerimonial, o (quase coitado) Cavanosa, um Casanova totalmente às avessas, é o embate em pessoa. Sua alma atormentada luta contra seus fantasmas, suas ilusões e suas sombras. Nascimento aproveita as vertentes do autor de clássicos modernos, como O Cemitério de Automóveis e O Arquiteto e o Imperador da Assíria, para tecer sua encenação em direção ao bizarro da vida humana. O Teatro Pânico de Arrabal tem, no sangue, a tradição do que há de mais bizarro, por exemplo, em autores como o espanhol Valle-Inclán. Mas segue além.O diretor extrai de seu elenco a força física e emocional para travar o embate entre as luzes e as trevas da natureza humana e do universo claustrofóbico de Arrabal. Daí, o trabalho monumental dos atores, em corpo e voz, no anti-jogo de não-olhares e não-toques, no texto que desmonta e remonta instantaneamente angústias e desejos, tudo ao mesmo tempo. Haja vulcão na Islândia! A preparação corporal intensa contracena com um texto intenso. É o trunfo dessa montagem.A música da peça embala insânias, nada de condescendências. As bonecas dispostas em cena, tristes e dóceis títeres caídos, foram criadas pela imaginação da artista plástica Suzy Gheler, e dão ao cenário um pingo de desespero, o que faz imaginar uma coleção de vítimas submissas de um Norman Bates de Hitchcock, que busca a poesia no horror. Não, Cavanosa pode não ser um louco, mas ele certamente está em processo e parece se divertir com isso. Daí, o visceral formalismo com que trabalha o encenador, embora alguns momentos do espetáculo, ainda que por um átimo, pareçam sufocantes, instantes quase arrastados. Mas pode ter sido uma apresentação em si, ou é parte da angústia declarada em cena.

Amália Pereira faz duas personagens antípodas, Sil e Lis (antípodas na mente do protagonista Cavanosa, diga-se de passagem). A candura de uma contrasta com a tensão sexual da outra, ou vice-versa. A atriz elabora corpo e voz com maestria, criando um ar pungente para ambas as personagens. Da mesma forma, o eficiente Alessandro Hernandez nos providencia em cena um Cavanosa atordoado pela mãe (Deborah Scavone, muito bem no papel), pelas bonecas que ele usa como objetos de um não-sexo e, finalmente, pelo conjunto das mulheres de verdade, no caso, vividas por Sil e Lis.

Não, Cavanosa não é um fóbico, não teme as mulheres. É apenas um atormentado, um enjeitado que se delicia com xingamentos e afasta veementemente um elogio, qualquer que seja, venha de onde vier. É dureza, esse personagem. Arrabal não mede nada, ele despeja torrentes, o tempo todo, infatigavelmente. Como um vulcão na Islândia.

Assim, a montagem de Reginaldo Nascimento faz jus a essa vertente do Teatro Pânico criado por Arrabal, por Alejandro Jodorowsky e por Roland Topor, os três papas do lúdico, do gozoso e da mais absoluta modernidade. O Kaus despeja esse universo atormentado para plateias reduzidas, na pequenina Sala Experimental do Teatro Augusta (alguns já a batizaram de “Augustinha”), exatamente para fornecer o desespero sem concessão, em pura claustrofobia. Boa escolha.

A criteriosa iluminação (de Vanderlei Conte) é precisamente parca, com poucos focos gerando sombras distorcidas e gigantes, expressionistas mesmo, e alguns contra-luzes que provocam nossos olhos, para enredar os personagens e os espectadores num mundo distorcido, opaco e sem saída, como prega cada linha de diálogo de “O GRANDE CERIMONIAL”. Mas, afinal, o que é este “grande cerimonial” do título? Melhor a plateia descobrir por si própria, pois cada um vai tecer sua impressão sobre o que não se deve decifrar muito, o que também poderia incorrer num belo desacerto. Melhor assistir à peça.

Depois de trabalhar autores como Plínio, Jorge Andrade, Millôr, Aimar Labaki, Luis Alberto de Abreu e de trazer e traduzir em workshops, montagens e livros dramaturgos como Santiago Serrano, Marco Antonio de La Parra e Edílio Peña (entre outros, no vitorioso projeto “Fronteiras”, fomentado pela Prefeitura), o Kaus atinge novo patamar. Eles trouxeram também o próprio Arrabal ao Instituto Cervantes, para palestras, e agora submetem São Paulo a um texto inédito do espanhol, cutucando onças com varas curtas, trazendo novidades e não parando um instante sequer. Que venham as novidades, que certamente virão. Por enquanto, o theatergoerpaulistano vai decifrando o cerimonial, no Augustinha. Talvez esse cerimonial seja mesmo o próprio teatro, em si, na sua brutalidade de luz, de texto, de atores e uma plateia (agora sem acento).

O GRANDE CERIMONIAL: UMA INQUIETANTE OBRA DE FERNANDO ARRABAL NA 25ª DO FESTIVALE, DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

Alexandre Mate - (10 de setembro de 2010)

Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. Clarice Lispector.

Mãe, que culpa tenho eu? Não nasci grotesco por querer.  Cavanosa à mãe, em O grande cerimonial. Fernando Arrabal.

            Filho de mãe beata e de pai comunista, denunciado pela mulher aos capangas de Franco, o espanhol Fernando Arrabal (1932) – radicado na França desde 1955, mas cidadão do mundo –, caracteriza-se em um dos mais importantes representantes de certa tendência estética denominada Absurdo. Partindo do pressuposto de que não se trata de negar o ser, mas as razões de ser, o Absurdo em teatro desenvolve-se na Paris ocupada pelos nazistas, principalmente a partir de 1943, com a publicação da obra de Jean-Paul Sartre, O ser e o nada.

            Sem mencionar o ocorrido com as obras de um dos mais significativos autores do romantismo alemão, Georg Büchner, o drama burguês, desde fins do século XIX – período de sua estruturação formal – passa por processos de in/explosão: na medida em que a forma, sua estrutura arquetípica, não permite discutir mais certos conteúdos, tanto objetivos quanto subjetivos. A sala de visitas, lócus arquetípico do drama, não permite entender a vida social e a interior. Para mencionar apenas a dramaturgia burguesa, a partir de Büchner, August Strindberg desenvolve a chamada dream play (peça pesadelo) ou o monodrama (drama de uma única consciência). No século XX, o Expressionismo alemão radicaliza a experiência, por intermédio do Stationen Drama (drama de estações), em que o viver é um pesadelo e a constante retomada da insuportável carga do mundo nas costa, retomando o mito de Atlas. O italiano Luigi Pirandello, também consciente da insuportabilidade do viver, cria obras geniais, insistindo nas teses de Arthur Schopenhauer, segundo as quais o ser humano, perdido de si/em si, representa permanentemente.

            Arrabal torna-se adulto, carregando o drama da delação da mãe (que acarretou na prisão e morte do pai); na negação, e não apenas estética do viver estético (ele viveu as barbáries da Segunda Grande Guerra Mundial); sentiu os resquícios de movimentos das vanguardas europeias e era absolutamente inquieto. Em Paris, a partir de 1960, no conhecido Café de La Paix, reúnem-se, dentre outros: Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowisky. Desse encontro, surge um novo movimento, chamado gongorismo (sinônimo de paroxismo e exagero) e depois rebatizado teatro pânico. Em tese, juntando características da estupidificação dadaísta, do niilismo da absurdidade e dos devaneios do surrealismo, o movimento propunha, no palco, a criação de cerimoniais psicanalíticos.

Na medida em que o tempo e o espaço aqui são limitados, e com o principal objetivo de comentar o espetáculo apresentado pela Teatro Kaus Cia. Experimental, de São Paulo, é fundamental saber que o teatro pânico (com quase nada escrito em português), representa uma tendência estético-teatral, fundamentada no choque (com relação à estética e à moral burguesas), na iconoclastia (destruição explícita do sagrados), no trânsito com o grotesco (desacomodação do tido como sublime, belo, harmônico), na desestruturação da identificação emocional com a obra (por intermédio do premeditado estranhamento)... tudo isso, em manifestação próxima (das personagens) a um cerimonial de natureza psicanalítica. Teatro de exacerbação, de exagero, de paroximos... Com tais ingredientes, é evidente que a obra provoque ligeiros e profundos malestares.

O novo e belo teatro do SESI de São José dos Campos tem uma confortável sala, e número significativo de cadeiras e se caracteriza no único espaço teatral da região em que se localiza. Na noite de 09 de setembro apresentou-se, mais um espetáculo selecionado para figurar da 25ª edição do Festivale, de São José dos Campos. Por conhecer o espetáculo, imaginei que o público pudesse ficar em área de desconforto, expressar seu descontentamento, retirar-se da sala. Grande surpresa: o público ao final aplaudiu esfuziantemente e durante a apresentação comentava o que via, tanto de modo jocoso quanto no sentido de registrar o que via (registro do estranhamento).

A comissão de seleção acertou em cheio ao selecionar o espetáculo. Por intermédio de obras desta natureza (ainda que se possa apresentar ressalvas no que diz respeito ao seu tema ser alienante, não se destinar especificamente à consciência etc) o público tem acesso – na medida em que os produtos da indústria cultural são sempre os mesmos e premidos pela mesma forma – a outros olhares, expressões, possibilidades.

O espetáculo dirigido por Reginaldo Nascimento, que trouxe Fernando Arrabal ao Brasil, é desigual, posto que, ainda precisa ser radicalizado em vários de seus expedientes. O jovem diretor é inquieto e está permanentemente a buscar novos expedientes para redesenhos da obra. O que mostra até aqui tem acenos da tendência pânica, mas, insisto, precisa ser aprofundado na condição de cerimonial. Tanto cerimônias do candomblé, aquelas religiosas de outras naturezas como as sessões de psicodrama podem ajudar no processo do estado paroxístico (extremado).

Por diversas serem as influências, e aqui já apontado, diversas são as influências que se amalgamam na obra, Alessandro Hernandez e Amália Pereira estão impecáveis. Transformam-se em marionetes grotescas (quase bonecos de vudu – donde o surrealismo em sua procura atávica, ritualística). Ainda há acertos e radicalizações a serem promovidas em suas personagens, mas, o que apresentam aproximam-nos muito do estado pânico. Os outros atores, mãe e amigo, com partituras afinadas precisam trazer, em si, algumas das características balizantes do movimento. Para a mãe, talvez, o caráter mais insinuadamente incestuoso, corruptor, cruel.

Os figurinos, categoricamente – e à exceção de Cavanosa – estão excessivamente coloridos e são quase infantis. Portanto, deveriam ser revisitados: afinal, não são personagens que possam ser encontradas em festas, na esquinas (importante não perder de vista o gongorismo original do movimento). A luz, em espaço tão grande (o espetáculo estreou no porão do Teatro Augusta) perdeu os recortes, absolutamente significativos, dos contrastes luz-e-sombra. No SESI, a iluminação aproximou-se das funções climático-emocionais do drama burguês. A trilha musical tem bons momentos, mas seu ecletismo precisaria ser afinado. O que há de mais complicado no espetáculo, rever tradução ou fala dos atores, são os te e você. Às vezes, na mesma frase, os pronomes se imbricam... e isso não é de Arrabal.

Por último, a pertinência de montar Arrabal hoje talvez passe muito pela espetacularização daquilo que em outros tempos já se nomeou viver. A imagem, a ideeia, o sonho “se montam” no ser... Não se tem mais um ser, mas – e para exemplificar, como no filme Matrix – seu simulacro. Tomando uma das teses do filósofo Walter Benjamin (A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica) o pior espetáculo de província (e não é, categoricamente, este o caso de O grande cerimonial, ao contrário) é infinitamente melhor do que o cinema, e pode-se acrescentar, a telenovela, os programas de auditório etc. De certo e contundente modo, O grande cerimonial explicita o seu a que veio e contra o que ele se apresenta.

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CERIMÔNIA DO AZUL FRENÉTICO

Wilson Coêlho

        Num estilo lingüístico neo-surrealista, O Grande Cerimonial, de Fernando Arrabal, em sua primeira versão, foi escrito em 1963. Mas, em meados dos anos sessenta, ao revisar as segundas edições de suas primeiras obras, Arrabal resolveu por inserir no interior dos diálogos considerados ingênuos, entendidos como uma marca de sua dramaturgia, algumas frases numa linguagem neo-surrealista. Na peça, O Grande Cerimonial, por exemplo, a partir da frase no meio de um diálogo onde um personagem afirma que “O azul frenético sacudirá nosso silêncio e nos colocará estrelas e pedrinhas por nossos olhos fechados”, compreendemos tratar-se de um artifício que produz – entre o encanto primeiro ao lidar com a palavra e sua “indubitável” musicalidade – um caminho difícil para conciliar essa espécie de incômodo da linguagem infantil com o assemantismo da poesia neo-surrealista.

       Trocando em miúdos, O Grande Cerimonial é um drama em dois atos e um prólogo, cujos personagens são CAVANOSA (uma referência ao mito de Casanova às avessas), SIL (Lis ao contrário), o AMANTE, a MÃE e LYS (outra forma de escrever Lis, como se pronuncia LUCE em francês, o nome da mulher de Fernando Arrabal). Aqui, o que chamamos de cerimonial se opõe à cerimônia como um mero conjunto de formalidades que se impõe como um comportamento regular de culto, pois – apesar de sua lógica interna – diz respeito justamente à possibilidade de suscitar uma ruptura com esses padrões.

         Cavanosa está em busca de uma mulher “pura” e – ao mesmo tempo – profana. Longe da idéia reduzida de uma relação doentia de um filho com sua mãe nos moldes do paroxismo redundante e edipiano da psicanálise, considerando que – do amor existente entre criador e criatura – sua abordagem é arquetípica, tanto no sentido mítico quanto histórico, ou seja, a mãe pode representar a Madona, a divindade, ou mesmo a Espanha que na vida do autor ocupa o papel de madrasta. Madrasta história, como ele a define de forma mais precisa em Carta de amor. Mas esta história de amor, apesar das “monstruosidades”, como muitos propõem, não se trata de uma história de amor ao contrário, entendendo o amor em nosso modelo de sociedade como um tipo de ato imundo (i-mundo, negação do mundo), ou seja, uma forma de estar fora do mundo. O mundo negado como totalidade e reduzido ao universo do objeto amado. Como preferem alguns, uma solidão a dois ou um egoísmo ampliado.

        A montagem de O Grande Cerimonial, de Fernando Arrabal, pelo Teatro Kaus Cia. Experimental, de São Paulo, com direção de Reginaldo Nascimento, abre um diálogo interessante entre a dramaturgia e a encenação. No que diz respeito à pesquisa estética, transitando do surrealismo ao pânico e passando pelo expressionismo e pelo absurdo, bem como a aplicação dos resultados da mesma, cabe ressaltar o esmero com o qual foi tratado o texto, garantindo a fidelidade para com a dramaturgia, sem que isso fosse um engessamento do processo criativo, considerando a agilidade da interpretação.

        No mundo de Cavanosa, em O Grande Cerimonial, as mulheres não passam de objetos-delírios para o seu prazer, como na cena de Fellini quando Casanova (baseado nas memórias do veneziano Giacomo Casanova que viveu de 1725 a 1798), depois de muitas conquistas, se apaixona por um manequim de loja (construído de fibra) ou mesmo quando diante de uma jovem seduzida ele constata o fato de ela ter chegado muito tarde em sua vida e, ele, muito cedo na dela. Mas o mais interessante na montagem de O Grande Cerimonial é que, apesar das bonecas que constam no texto de Arrabal, os personagens humanos também se metamorfoseiam em bonecos. Uma idéia de que o livre-arbítrio humano se pauta numa determinada ordem em que a liberdade é a possibilidade de optar, mas o gesto de optar também passa por uma limitação e controle.

       Optamos entre o que se nos é oferecido num universo de compreensão de um caos que tem suas próprias regras. Por outro lado, na encenação, vale a pena destacar que existe ai um equilíbrio que se sustenta entre o excesso e a escassez. Os bonecos-atores, não se perdem na rigidez estereotipada de bonecos e, tampouco, são vítimas da interpretação demasiado dramatizada. O personagem Cavanosa, coxo e corcunda, interpretado por Alessandro Hernandez, pode servir de exemplo, considerando que mesmo sendo coxo e corcunda, perfil que – de uma forma bem sutil – delineia sua condição humana entre a fatalidade que materialmente o caracteriza e a possibilidade da revolta e criação de novos sentidos.

        A personagem Sil (Lys ao contrário), interpretada por Amália Pereira, também oscila entre o humano-boneco e o boneco-humano, como uma bailarina da caixinha de música que está no limite entre cumprir a movimentação de sua personagem previsível de sua condição e a possibilidade de se rebelar como tal. A mãe, interpretada por Deborah Scavone, mais que um boneco, se sustenta do arquétipo da Madona que tem um papel a cumprir, embora extrapole essa condição na medida em que – em desacordo com a tradição edipiana – Laio fica em segundo plano e, se é possível dizer do incesto, aqui é a Jocasta quem se insinua. Mas pode-se interpretar que a mãe, no sentido da geradora, se coloca no lugar de uma nova esfinge que – para não devorar o filho que considera frágil – faz com que este a decifre para que o mesmo, ao saciar-se de sua carne, possa sobreviver ao sentir-se forte.

       O Amante, interpretado por Alessandro Hanel, surge como uma espécie de personagem não-personagem, mas esse não-personagem acaba por se tornar o pivô para o desenrolar da trama, considerando que – apesar de não ser um dos protagonistas – se insere como a causa principal do conflito do espetáculo, tornando-se um obstáculo que propicia um exercício da contradição dentro da lógica que se estabelece como um princípio de identidade na relação opressor-oprimido da obra. Lis (Sil ao contrário), por sua vez, e trazendo novamente à cena Amália Pereira, revela o aspecto circular da obra arrabaliana, onde o princípio e o fim são dois lados da mesma questão, onde a continuidade se dá como o meio dessa realização.

        Assim, o que se convencionou, a partir de Martin Esslin, definir o absurdo, em Arrabal, mais que uma necessidade de negação do ser, trata-se de colocar em questão as razões do ser e, como na visão existencialista de Sartre em O ser e o nada, é uma espécie de “divina comédia”, no sentido de uma visão irônica e iconoclasta da existência, colocando em xeque a lógica que, de uma certa perspectiva, somente se distingue do caos por um acordo silencioso que estabelecemos para suportar a vida.

        Enfim, para além da idéia de cerimônia que é a proposta desde a estrutura do texto e do tema que encerra O Grande Cerimonial, o Teatro Kaus Cia. Experimental realiza a verdadeira cerimônia que se dá no prazer do encontro entre palco e platéia, no momento em que o azul frenético sacudiu nosso silêncio, nos colocando estrelas e pedrinhas em nossos olhos...

Wilson Coêlho é dramaturgo, escritor, graduado em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo - http://wilsoncoelho.blogspot.com/  

 VI Festival Nacional de Teatro -Vitória-ES -21/10/210

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Onde está nosso “Vazio”?

Paulo Bio - (11 de setembro de 2010) 

 Pesquisador (FAPESP)- Estuda artes cênicas com habilitação em teoria teatral (dramaturgia e crítica), na ECA-USP

         Nas conversas com os grupos que se apresentam neste 25º FESTIVALE, quase sempre surgem inquietações a respeito de quais são os assuntos abordados nas obras. Pela terceira vez neste festival – no debate com o diretor Reginaldo Nascimento, de O Grande Cerimonial – a resposta perpassou temas como “o vazio contemporâneo”; “a incomunicabilidade” etc. Não por acaso, nas três vezes que a resposta foi essa, o assunto pareceu algo relegado ao segundo plano do debate e que, no fundo, o que realmente importava ali era as discussões sobre as estéticas. Ou seja, o assunto surgia então como mera JUSTIFICATIVA para a pesquisa teatral e, como tal, determinação horizontal nas obras, isto é, sem qualquer aprofundamento ou contextualização de si. Alinhando-se, ao que parece, a reprodução passiva dos signos da moda semiológica na pós-modernidade.   

        O espetáculo do Teatro Kaus Cia. Experimental encena a obra O Grande Cerimonial de Fernando Arrabal, autor espanhol próximo aos procedimentos do que se convencionou chamar Teatro do Absurdo. Um homem “perturbado” chamado Cavanosa toda noite vai ao parque na busca por mulheres para realizar seu cerimonial sanguinolento em companhia de sua mãe, com quem possui doentia relação: o paroxismo da psicanálise. A encenação do Teatro Kaus optou por uma interpretação expressionista onde as personagens movimentam-se como bonecos, marionetes saídas dos velhos filmes de Fritz Lang ou das obras de Edvard Munch.

       Na primeira cena do espetáculo, o ator Alessandro Hernandez (Cavanosa) e a atriz Amália Pereira (Menina) realizam muito corretamente a proposição, o diálogo no banco da praça impressiona pela estranheza “natural” com os atores passeiam por sua movimentação extremada e pelo “absurdo” das sentenças. De fato, a absurdidade ganha vida, a cena configura-se como “situação” concreta e consegue superar aquela velha “demonstração” do absurdo, tão comum em espetáculos do tipo. Entretanto, não é possível dizer o mesmo das outras duas personagens (a Mãe e o Amante) o que cria uma disritmia no espetáculo.   Porém, tal disparidade não compromete a proposta e o espetáculo consegue se mostrar como um instigante objeto estranho, que, por sua vez, impõe a dúvida sobre o que significa aquilo em meio a tão violenta padronização estética da indústria cultural contemporânea. O efeito é visível no espaço onde foi representado, o Teatro do SESI, pois, ao que parece, seu público é composto por muitas pessoas que não freqüentam teatro constantemente: assim, o estranhamento potente de O Grande Cerimonial desequilibra as certezas paradigmáticas do senso comum. Só que tal “força” parece ter fundo falso. 
    A reiteração da temática da “incomunicabilidade” contemporânea, dos “abismos psicanalíticos” ou, nas palavras do diretor: “um grande jogo sobre o vazio” faz com que o estranhamento pela forma redunde num arcabouço filosófico bastante descontextualizado e sem nenhuma profundidade para além do mero apontamento “up to date” de velhas filosofias do pós-guerra europeu (principalmente). Também presente no debate, o diretor Robson Corrêa (do espetáculo Companhia) contou que o Brasil foi o segundo país do mundo a encenar um texto específico de Samuel Beckett.

        E disse que muitos não se conformavam e perguntavam: “o que essa filosofia decadente tem a ver conosco?”. Embora o diretor estivesse ridicularizando este tipo de indagação, é urgente enfrentá-la e resistir a disseminação – estilo papagaio-tropical – das estruturas de pensamento que se originam num entorno histórico e geográfico absolutamente diverso do nosso. Incorporar tais filosofias como “verdades universais” da contemporaneidade é reviver o imperialismo eurocêntrico e fechar os olhos a nossa montanha contraditória: Brasil, América Latina, Terceiro Mundo em ascensão econômica. Enfrentar tal realidade não significa excluir temas como o “vazio”, “abismos comportamentais” e/ou a “incomunicabilidade”, mas sim verticalizar o olhar sobre tais “verdades” e compreendê-las dentro de um contexto histórico específico, dinâmico e em veloz transformação – muitíssimo diferente do contexto Europeu.     O espetáculo O Grande Cerimonial é provocativo e esteticamente surpreendente, mas parece faltar-lhe a disposição de compreender a obra de Arrabal de forma menos reverente e, portanto, abrir a janela do debate às nossas ruas sinuosas e contraditórias.  

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